Manifesto da minha fotografia

 

Quando somos mais jovens, temos urgência em tudo.

Vivemos entre o desejo de chegar, de conquistar, de possuir. E, entre os altos e baixos da vida, os inícios de ciclos e os encerramentos, eu me deparei com uma frase que mudou completamente a forma como eu enxergava os meus dias:

"A vida é um eterno anseio pelo que não se tem e o tédio de possuir."

Ela fez um sentido imenso para mim.

Porque, se a vida for apenas o desejo de conquistar algo, vamos resumir nossos dias a uma sequência de metas. Sempre esperando o próximo passo, a próxima conquista, o próximo momento importante.

Mas e o presente?

E o agora?

Será que ele existe apenas como um caminho para chegar a algum lugar?

Hoje eu entendo que não.

Eu continuo tendo sonhos. Continuo desejando crescer, construir, realizar. Isso é natural. A diferença é que eu não enxergo mais os dias como um meio para um fim. Eu enxergo cada dia como parte da própria vida.

E sei que essa ideia de "aproveitar o processo" pode soar bonita demais para quem está vivendo um momento difícil. Porque o processo, muitas vezes, dói. Às vezes, a dor nem parece justa.

Mas é justamente ele que nos transforma.

É ele que nos ensina que a maior riqueza da vida quase nunca está nos grandes acontecimentos. Ela mora na simplicidade. Na rotina. Nos pequenos gestos que, enquanto acontecem, parecem comuns demais para serem percebidos.

E, talvez, essa seja a única certeza que realmente temos: este momento.

Este instante.

É por isso que eu acredito na fotografia.

Não porque ela eterniza o tempo, isso ninguém consegue fazer.

Mas porque ela nos permite voltar para aquilo que um dia passou despercebido e perceber o quanto era precioso.

Eu não acredito que você precise esperar uma roupa nova, uma viagem, uma data especial ou um grande acontecimento para merecer ser fotografado.

A vida não acontece só nos dias extraordinários.

Ela acontece no café compartilhado, na bagunça da casa, nas mãos que envelhecem, nas crianças crescendo sem que a gente perceba, nos abraços apressados antes de sair para trabalhar, nas risadas sem motivo e nos silêncios cheios de afeto.

É essa vida que eu quero registrar.

Porque são esses momentos que, daqui a muitos anos, vão contar a sua história.

E talvez, quando você olhar essas fotografias aos 80 anos, não se emocione pelo lugar onde estava ou pela roupa que vestia.

Você vai se emocionar porque vai lembrar de quem você era. De quem estava ao seu lado.

De uma fase que parecia tão comum… mas que, na verdade, era um dos capítulos mais bonito da sua vida. É nisso que eu acredito.

E é por isso que eu fotografo.

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